Somos palavras sem definições precisas

Todos exercemos papéis na sociedade, mas você já pensou em como as palavras que nos representam também nos coisificam?

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Thanks, Ryoji Iwata.

Volta e meia escuto alguém dizendo que a língua é viva. O idioma — seja qual ele for — muda de acordo com o uso que fazemos das palavras. Aqui no Brasil “Vosmicê”, virou “você”, que virou “ocê”, “cê” ou “vc”. E como dizer que essas partículas de expressões estão erradas?

Por mais que o ser humano tenha se esforçado ao longo dos milênios, a linguagem verbal não consegue expressar o caleidoscópio de sentimentos e pensamentos que habitam nossos corpos. Existem palavras que param na garganta ou viram grunhidos de raiva, que muito lembram nossos ancestrais. Por isso precisamos dos gestos, das artes e das expressões faciais.

A língua apenas se esforça para se aproximar o máximo possível do significado. Esse é um dos conceitos básicos da semiótica e que diariamente retorna à mente, principalmente quando reflito sobre o peso das palavras na comunicação interpessoal.

Muito embora sejamos pronomes — eu, você e nós, que estamos lendo este texto — irremediavelmente também somos substantivos e adjetivos, substâncias que habitam em todas as particularidades esse mundo e exercem papéis que qualificam a própria vida.

Eu, Camilla, publicitária, filha, namorada, pedestre. Tantas coisas e sentimentos dentro de um só pronome: eu. Poderíamos percorrer diversos caminhos filosóficos, mas a minha proposta é que possamos devanear juntos a respeito dos nossos papéis e os nomes que recebemos em virtude deles.

Penso que muitas vezes essas denominações desumanizam e coisificam. Para ficarmos na mesma página citarei um exemplo, que foi o estopim para essa reflexão.

No trânsito existem pedestres, ciclistas, motoristas, motociclistas, caminhoneiros, etc. Todos esses papéis são exercidos por seres humanos, mas dependendo da sua posição, os demais personagens perdem substância e forma.

Já ouvi críticas aos ciclistas apenas por existirem e estarem se locomovendo em seu espaço de direito, que é transitando no meio urbano. Do mesmo modo, já presenciei palavras grosseiras para motociclistas e “mulheres no volante”. Este um caso especial que é carregado de ódio, quando o motorista volta ao seu gênero como crítica.

Em todos esses casos facilmente esquecemos que respectivamente são PESSOAS andando a pé, PESSOAS pedalando bicicletas, PESSOAS guiando automóveis, motocicletas, caminhões. Consegue perceber a coisificação por meio dos papéis que exercemos ou até mesmo rótulos? No trânsito somos todas pessoas utilizando meios de transporte para sair do ponto A e chegar ao B.

MULHER negra, PESSOA com deficiência. Sempre existe à frente essas palavras que nos aproximam do nosso caráter humano, mas que facilmente são ocultadas no uso e esquecidas pelo descuido.

No caso do trânsito é visível o processo de desumanização que ocorre no cotidiano das cidades. Todos esquecem-se que por trás do ciclista há um ser frágil, que está conectado por meio de relações com outros seres humanos e que sua ausência será sentida.

Da mesma forma podemos citar outras tantas relações: empregado x empregador, vendedor x cliente, leitor x escritor, nativo x imigrante, etc.

Como disse Oscar Wild, parafraseado em tantos perfis de redes sociais,

“Não quero me definir, quem se define se limita” e continua “Meu único limite é a minha consciência. Sei quem sou, mas prefiro não ter uma opinião formada sobre mim”.

Nós sabemos quem são os outros que definimos tão facilmente?

No fim, tudo se resume a empatia, termo tão necessário para viver em comunhão, que também é raiz de “comunicação”, que se expressa de tantas formas, cores, sorrisos, sons, gestos, culturas e por aí vai.

Você, pessoa-leitor, já reparou nessas estranhas denominações que nos aproximam e distanciam?

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