Por que Wonder Woman é importante, mas não é tudo isso

Texto com muitos spoilers, mas tudo bem pois provavelmente você já viu o filme.

0

Wonder Woman é o assunto da vez. O lançamento da DC arrecadou mundialmente em seu primeiro final de semana US$ 223 milhões, conferindo à Patty Jenkins o título de melhor estreia de um filme dirigido por uma mulher.

Esses números são extremamente importantes para um mercado dominado por homens e, que em sua zona de conforto não acredita – ou acreditava – no potencial de filmes protagonizados por mulheres.

Há quase 10 anos filmes como Viúva Negra ou Capitã Marvel entravam e saiam de listas de rumores, mas só este ano a principal rival da DC confirmou que Carol Danves ganharia um filme para chamar de seu.

Mas hoje esse espaço é para falarmos sobre Mulher Maravilha e sua importância como precursora do protagonismo feminino em um gênero historicamente dominado por homens. E explicar também porque não achei o filme tudo isso que estão falando.

Já tínhamos visto uma ótima prévia da personagem em Batman v Superman, que em poucas cenas foi capaz de mostrar seu potencial e, ainda nos deixar curiosos com sua misteriosa foto, que inicia a história em Wonder Woman.

O teste de qualidade pós-créditos

Acredito que todo bom filme de super-herói tem uma característica especial: assim que sobem os créditos a plateia precisa se sentir poderosa, seja em filmes divertidos como Guardiões das Galáxias, ou em introspectivos como é o caso de Logan. Você sai da sala de cinema se sentindo um super-herói, mesmo quando derrotado.

Eu queria muito ter sentido isso com Mulher Maravilha e a ausência me fez questionar por um bom tempo. Gente, o que foi que aconteceu comigo? Por que saí do cinema sem conseguir vestir a camisetinha de Militante Maravilha? Por que não estou achando isso tudo que as minhas amigas estão achando? Dúvidas, dúvidas e dúvidas.

Tem essas coisas que não fazem muito sentido

A parte inicial, mostrando a ilha idílica de Temiscera – que descobri falar errado a minha vida inteira – mostrou exatamente o que eu esperada do filme: mulheres fortes e guerreiras, que longe da civilização desenvolveram uma sociedade de cooperação. Aquela cooperação feminina que muitas vezes não encontramos na ficção ou na vida real, onde a competição dá lugar ao apoio, e a inveja ao afeto. Socialmente a rivalidade entre as mulheres é estimulada, caso você nunca tenha percebido.

Não seria difícil que um diretor homem explorasse a rivalidade entre as irmãs Hipólita e Antíope, principalmente quando as duas possuem naturezas e crenças tão opostas, iniciando pelo treinamento de Diana. Antíope queria preparar a princesa guerreira para o inevitável, enquanto Hipólita, acreditava que o melhor seria afastá-la de tudo.

No entanto, ambas optaram pelo meio termo com sabedoria e sensatez, o que me deixou surpresa positivamente. A “sororidade”, ou o apoio entre as mulheres, sempre é bem-vinda quando representada no entretenimento. Posso citar, por exemplo, a série de Jessica Jones, onde a protagonista tem apoio incondicional de sua amiga Trish Walker, diferencial do roteiro da série.

Tia Antíope sendo maravilhosa <3

Achei que o filme teria outros exemplos disso, mas acabou por ali. Nem mesmo a morte de Antíope, que esteve tão próxima de Diana e era a maior guerreira de Temiscera, pareceu ter importância para a protagonista ou aquele grupo de mulheres extremamente próximas. Não tivemos um funeral ou despedidas honrosas, dignas de uma guerreira. Talvez eu esteja rezando por uma cena extra inserida nesse ponto. Eu chorei quando Antíope morreu e não deram nem um tempo para me recuperar.

Inocência como alívio cômico

Em vez disso somos levamos à cena onde Diana encontra Steve Trevor banhando-se nas águas curativas, uma cena que começou a traçar um perfil confuso para nossa heroína: as cenas de ingenuidade mal construídas.

Sabemos que a Diana vista em Batman v Superman já era uma mulher experiente, carregada de toda uma história no mundo do patriarcado – como chamam nos quadrinhos o nosso mundo – que começou ainda na 1ª Guerra Mundial. Imagine todos os outros momentos em que ela esteve oculta em nosso mundo, observando ou agindo.

Isso quer dizer que a história no mundo dos homens moldou a Diana da atualidade. Portanto, é possível imaginar que houve uma tentativa de contrastar a inocência de uma amazona criada a vida inteira em um cenário controlado, sem reais dificuldades e perigos, com a mulher experiente de Batman v Superman.

Steve Trevor interpreta então Diana como uma mulher de sua sociedade: casta e pudica, principalmente por viver a vida inteira apenas entre mulheres. No entanto, ela demonstra ser muito esperta e encara com naturalidade questões sexuais, demonstrando-se até versada no assunto. Nada disso me espanta. Diana não é inocente, mas em alguns momentos ela é feita de boba pelo roteiro.

Esse perfil fica confuso, pois, uma guerreira não apenas precisa ter perícia na espada, mas também um cérebro muito afiado e, praticamente tudo que vemos depois, quando Diana é introduzida ao mundo do patriarcado, trata-se de alguém que se demonstra alheia ao seu contexto, querendo andar na rua com seu uniforme ou carregando armas de guerra, destacando-se da multidão. Alivio cômico forçado não é engraçado.

A transformação de Betty

A cena da boutique de roupas, quando ela prova milhares de roupas, antes de escolher um terninho, remete a uma cena muito clichê de filmes. Trata-se da transformação da garota feia, que acontece por meio do guarda-roupa, revelando apenas uma linda mulher mal arrumada, como em Diária de Princesa. Aqui com Diana, obviamente, o efeito é contrário: querem deixa-la menos atraente, uma piada a essa cena clichê de filmes “para meninas”. Só não sei se funcionou muito bem…

Princesa Mia em sua transformação para ser uma princesa aceitável.

É importante ressaltar que, todos esses pontos são claramente uma tentativa de trazer bom-humor ao filme, mas Gal Gadot não convence nessas tentativas. Ainda na cena do guarda-roupa, ela experimenta óculos – quem diria que a invenção do disfarce do Superman seria dela? – e opta por usá-los, quando a personagem Etta, alívio cômico que aparece e desaparece com a mesma facilidade, faz o seguinte comentário “Você está mesmo tentando esconder essa beleza?”.

Indo pra balada do patriarcado.

Os óculos, enquanto no cinema são vistos como disfarce ou intelecto nos homens, para as mulheres são um ícone estereotipado de feiura e de inteligência, mas não de sucesso. Por que raios precisaram inserir esse comentário sobre tentar esconder a beleza em um par de óculos?

Nesse ponto, acho relevante resgatarmos a origem da personagem nos quadrinhos.

A Mulher Maravilha foi criada em 1941 pelo psicólogo William Moulton Marston, que usava o pseudônimo de Charles Moulton e se baseou nas suas duas companheiras para criar Diana.

Segundo ele “A Mulher Maravilha é propaganda psicológica para o novo tipo de mulher que deveria, na minha opinião, comandar o mundo”. Até mesmo as armas de Diana tinham significados: os braceletes para lembrar as amazonas o que acontece com uma mulher ao se deixar conquistar um homem e; o laço da verdade, que submetiam as pessoas à vontade da Mulher Maravilha.  No entanto, os quadrinhos originais ficaram conhecidos por sempre mostrarem mulheres amarradas de forma indefesa e, mesmo que a mensagem fosse feminista, as cenas – e algumas declarações de Moulton – demostravam outra coisa. Curiosamente os quadrinhos da Mulher Maravilha na época eram mais lidos por meninos.

Desde a sua origem, a Mulher Maravilha foi um personagem controverso, que sofreu de muitas formas nas mãos de escritores. Patty Jenkins conseguiu que a atriz Gal Gadot, mesmo em pouco traje e extremamente bela, fosse capaz de entrar em cena sempre com um propósito maior do que simplesmente seu corpo. Isso o filme acertou em cheio, mas tem esses pequenos detalhes como os óculos – pode me chamar de recalcada – que me fizeram retornar para a vida real e lembrar como ele é cruel para nós mulheres de verdade.

No entanto, um detalhe que me encantou foi que não tentaram esconder as marcas de expressão das amazonas. Hipólita e Antíope foram mostradas em toda a sua maturidade e experiência, coisa que normalmente o cinema esconde. Achei isso muito poderoso e real. Aquelas amazonas existem de verdade, não é? Eu acreditei.

Diana e seu isolamento no mundo do patriarcado

Outro ponto que me deixou muito decepcionada é que, fora do mundo das amazonas, Diana foi apresentada a apenas duas mulheres: a secretária Etta e a vilã Dr. Maru, que mesmo assim foram subaproveitadas. Em nenhum outro momento ela interagiu com alguma mulher comum e inspiradora. Faltou (ou foi intencional) um elenco feminino de apoio, que não ficasse apenas em Temiscera.

Etta era muito divertida, mas sumiu do nada. 🙁

Não importa, se ela estava em 1914, mesmo com todas as limitações da mulher nessa época, sempre existiram mulheres fortes e destemidas. Por que não uma cena, onde mulheres comuns apoiassem Diana, assim como Superman teve seus momentos nos filmes? É isso que faz o público sentir aqueles deuses e deusas tão reais.

Diana teve algumas tentativas de aproximação. A cena atravessando o front foi o mais próximo que a personagem chegou a esse que seria o seu momento de sacrifício, mas a terrível execução em efeitos especiais e pós-produção quase colocou tudo a perder deixando a cena brega – sinto dor por admitir isso, mas aquela câmera lenta e os cabelos ao vento lembraram qualquer clipe de música pop. O que aconteceu em algumas outras vezes ao longo do filme.

Outras oportunidades aconteceram em detalhes, como a mãe nas trincheiras segurando seu bebê ou os homens voltando mutilados da guerra. Foram tentativas sutis e poderiam ser suficientes – talvez tenham sido para alguns – mas Gadot pareceu passar por essas cenas e não as vivenciar. Até mesmo quando a nuvem de fumaça tóxica mata todos na cidade – cena muito parecida com Superman na explosão do tribunal – foi difícil de criar conexão.

Tudo é uma sucessão de eventos, que muito rapidamente culminam na mensagem final do filme sobre o amor vencer a violência.

Mais amor por favor

Quer saber por que fiquei triste com essa falta de sentimento? Porque a Mulher Maravilha é conhecida como a pessoa que mais ama a humanidade, gente. Ela já foi detentora do anel rosa dos Lanternas – mesmo por pouco tempo em Blackest Night. Faltou amor ali naquela mulher e, foi isso que talvez não tenha criado a conexão que eu tanto esperava.

Tenho a esperança que Wonder Woman tenha sofrido o mesmo problema de Batman v Superman, onde a versão final para o cinema deixou a desejar pela imensidão de cortes e regravações. Sinto sinceramente que existe um outro filme oculto, que consertaria alguns desses pontos que comentei. Tirando os efeitos especiais.

E esse vilão aí, heim?

A resolução sobre a questão da arma e do vilão não foi surpreendente, mas talvez seja suficiente para o filme. Foram muitas as pistas sobre a verdadeira origem da arma The God Killer: diálogos entre a pequena Diana e sua mãe, o achado do uniforme e dos artefatos de forma discreta e, finalmente, a facilidade em derrotar o general Ludendorff. Mesmo assim, Sir Patrick deixou evidente que ao invés de ajudar estava empurrando os heróis exatamente para onde ele queria. Não precisa ser um espectador muito esperto para notar isso.

O relacionamento com vilão ficou abaixo da média dos outros filmes da DC, sendo Ares extremamente estereotipado como o “vilão muito mau que odeia a humanidade” e com poucas facetas para mostrar. Mas quem lembra de Ares quando temos a Mulher Maravilha sendo maravilhosa, não é mesmo? Isso chega ao ponto que todos nós queríamos.

Representatividade importa

Pois, embora tenha ficado desanimada com todas essas questões, acredito que nossa queria Wonder Woman seja um símbolo importante, não apenas como uma personagem de quadrinhos ganhando seu espaço em outra mídia, mas para meninas e mulheres de todo o mundo que foram impactadas de alguma forma pela personagem e experimentaram essa #representatividade linda.

Talvez o tempo – e mais filmes com protagonistas femininas fortes – seja a melhor forma para conseguirmos ver que esse é um filme comum em termos técnicos e narrativos. Por enquanto, a única coisa que podemos ter certeza é que representatividade é poder, importa e é por isso que eu amo esse filme, mesmo não gostando tanto dele como vocês. Conseguem me entender?

Quando eu era criança ficava chateada pq só meninos eram Jedis… Então eu entendo completamente essa menininha!

Deixe um comentário maravilindo aqui!

Please enter your comment!
Please enter your name here