Os primeiros desafios de uma dieta vegetariana

Deixar de comer carne não é tão difícil e você ainda pode equilibrar melhor a sua dieta.

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Créditos: Toni Cuenca.

Você é vegetariana por escolha? Nossa, deve ser difícil parar de comer carne. Eu adoro picanha, linguiça, churrasquinho… Hmmm uma delícia! Tem pastel de presunto, moça. Ah, você não vai salvar o mundo por parar de carne e ainda vai ficar doente, sabia?

Na época da publicação deste post – já que você pode estar vindo do futuro – completei 9 meses desde que tomei a decisão de retirar carnes da minha alimentação e as frases acima foram apenas algumas que escutei durante esse tempo.

Por isso, resolvi escrever sobre o assunto para compartilhar um pouco da minha experiência e mostrar que vegetarianos não são seres de outro planeta. Antes do toque mais pessoal vou explicar um pouco sobre as diferenças da dieta vegetariana, ovolactovegetariana e vegana, assim todo mundo ficará na mesma página.

Vegetariano x Ovolactovegetariano x Vegano

A rigor não sou vegetariana. O correto seria dizer ovolactovegetariana, pois não me alimento de carnes, mas como o próprio nome sugere ainda consumo laticínios e ovos. Além disso, adoro sushi, mas esse é um desvio de conduta – já que peixe também é carne – que ainda estou aprendendo a lidar. Por favor, não julgue.

Vegetariano true é aquela pessoa que não come nada de origem animal, incluindo ovos, laticínios e mel. Já vegano é quem não se alimenta dessas coisas e também não usufrui de nenhum produto oriundo ou testado em animais.

Mas por que você fala que é vegetariana? É mais fácil explicar para as pessoas que sou vegetariana sem entrar em todos esses pormenores, incluindo o “sushi”, que pode facilmente iniciar uma discussão de 30 minutos ou mais sobre as minhas escolhas alimentares. Se você tem algo a declarar pode deixar nos comentários.

Por que parei de comer carne

São vários os motivos que levam alguém a mudar os hábitos alimentares. Muitas vezes são intolerâncias, que obrigam as pessoas a restringirem o cardápio.

No meu caso foi por uma escolha que envolve motivos éticos e ambientais. Comecei a questionar mais seriamente toda essa loucura da indústria da carne, suas consequências e se realmente fazia sentido na minha vida continuar consumindo, já que nunca fui uma dessas pessoas apaixonadas por churrasco. Para muitos a carne é prato principal, mas pra mim sempre foi uma espécie de acompanhamento. Se não estivesse lá, tudo bem. Por coincidência, no mesmo período de todas essas reflexões, foi divulgado em março de 2017, o escândalo da Carne Fraca e essa foi a cereja do bolo para tomar a minha decisão.

Mas Camilla, você não salvará o mundo parando de comer carne. Não salvarei, mas pelo menos minha consciência estará tranquila sabendo que estou seguindo as minhas escolhas e aquilo que acredito ser correto. Além disso, não estou sozinha. Não encontrei dados preciso sobre vegetarianismo e veganismo pelo mundo, mas acredito que seja uma onda crescente.

Se você pesquisar um pouco sobre a indústria agropecuária, encontrará crueldades não apenas com os animais, mas também impactos negativos em todo o meio ambiente, que é modificado para a criação e posteriormente sofre com os resíduos da indústria. A Organização das Nações Unidas calcula que 70% do desmatamento da Floresta Amazônica ocorra por causa do avanço da pecuária. Há um exagero que não é justificável do ponto de vista do consumo humano, mas pelo capitalismo. Eu não quero fazer parte disso.

Cuidados na dieta vegetariana

A carne tem uma grande importância na dieta humana, mas não é totalmente necessária. Diferente do que a maioria pensa, as proteínas e outros nutrientes podem ser encontrados no reino vegetal, excluindo a vitamina B12 – que facilmente pode vir de suplementação. Uma curiosidade: Sabia que até mesmo pessoas que comem carne podem ter deficiência de B12? Eu inclusive fui uma dessas pessoas.

Todo mundo pode ficar doente quando tem uma dieta desequilibrada, mesmo que ela inclua carne. É muito comum encontrar quem se alimente para matar a fome ou por prazer, mas pense: qual a função prática dos alimentos? Não é prazer, embora socialmente isso aconteça. Nós comemos para fornecer energia ao corpo e fazê-lo funcionar, mas quem não reflete sobre a própria alimentação pode estar causando desequilíbrio ao organismo.

Durante esses 9 meses percebi alguns cuidados e benefícios, que hoje compartilho com você:

1) Busque sempre conhecimento

Optar por uma dieta vegetariana ou vegana não significa apenas excluir a carne da alimentação. Muito pelo contrário: é preciso acrescentar outros alimentos ao cardápio para substituir os nutrientes. Exige certo planejamento e até mesmo uma pesquisa sobre nutrição, que pode e deve ser acompanhada por um especialista.

É muito comum, por exemplo, excluir carnes e continuar consumindo ovos e leite, mas segundo Eric Slywitch, autor do livro Alimentação sem carne, isso pode aumentar a quantidade de gordura. O ideal, nesse caso, seria substituir a carne por leguminosas como feijão, ervilha, lentilha e grão-de-bico, que não por coincidência são ótimos ingredientes para os hambúrgueres vegetarianos – uma delícia!

2) Alimentação mais variada e saudável

De certo modo, percebi que estou me alimentando muito melhor do que antes, pois acrescentei outras variedades de alimentos ao meu prato, como sementes, legumes e cereais. Comer carne não necessariamente significa que você está comendo bem, principalmente, quando você a transforma na base da sua alimentação. O segredo é diversificar! Percebi que estou me sentindo muito melhor agora comendo alimentos mais leves, que facilitam a digestão e não causam tanta sonolência.

3) Não é preciso mudar do dia para a noite

Faz 9 meses que decidi parar de comer carne, mas essa contagem não vale para a prática. A mudança foi gradual. Primeiro diminui a quantidade durante as refeições, aderindo à Segunda sem Carne, um movimento global que busca conscientizar a respeito do impacto do consumo de carne.

Depois fui excluindo a carne bovina e de frango, por último excluí peixes, que em apenas algumas ocasiões consumo nos sushis. A carne de porco nunca foi uma opção para mim, incluindo bacon – choque! Tomar a decisão e ir evoluindo é mais importante do que uma autocobrança punitiva, que no final não trará resultados positivos.

Observe seu corpo com carinho e veja se ele está aceitando suas escolhas. O que percebi nessa adaptação gradual, além da minha reação ao consumo da carne, foi uma melhor aceitação das pessoas ao meu redor.

4) Não faz tanta falta assim

Tem gente que fica chocada quando falo que parei de comer carne por opção. É sério, isso acontece com bastante frequência, seguido do comentário “Nossa, deve ser bem difícil, né?”. Bem, tudo é questão de hábito, inclusive a nossa alimentação.

No meu caso foi super tranquilo, o que me deixou até surpresa. Percebi que a questão de retirar gradualmente a carne da minha alimentação também influenciou. A única coisa que sinto falta de verdade é de Coxinha de Galinha, que até dá para disfarçar com opções vegetarianas que ficam à altura.

5) Faça um acompanhamento

Uma das coisas que ainda não coloquei em prática foi buscar ajuda de uma nutricionista. Em todos os lugares e todas as pessoas que conversei, aconselham acompanhamento médico para evitar a deficiência de alguns nutrientes. Se você parar para pensar isso deveria ser feito por todas as pessoas, independente da dieta que ela escolha seguir. É uma questão de cuidado com a própria saúde, por isso vejo como um investimento na minha qualidade de vida.

6) Tem que ter paciência

Paciência é uma das coisas que mais treinei nestes últimos meses. Principalmente para ouvir comentários dos outros sobre “só comer alface” e piadinhas que só demonstram a babaquice do próximo. Além disso, é comum que pessoas que nunca se preocuparam com a sua alimentação comecem a dar pitacos. Paciência, muita paciência.

7) Opções vegetarianas nos cardápios

Aos 18 anos – isso foi há 10 anos – fiquei 1 ano e 6 meses sem comer carne, mas naquela época eu não sabia muito bem sobre a dieta vegetariana e também não tinha muitas opções quando precisava comer fora. Isso foi muito desgastante e acabei abandonando a ideia. Hoje, percebo que a maioria os lugares têm opção vegetariana nos cardápios, embora os coffee breaks de eventos ainda achem que oferecer frutinhas é o suficiente para matar a fome das pessoas.

Burrito vegetariano mais gostoso de Florianópolis.

8) Você ainda pode frequentar churrascos

Comer é um ato social. Nós juntamos as pessoas em volta de comida e qualquer conversa pode surgir, desde uma paquera até negócios. Não comer carne muda um pouquinho a escolha dos lugares quando saímos com outras pessoas, mas até agora achei totalmente adaptável. Churrasco? Tranquilo, avise quem está organizando e comente que dá pra fazer um espetinho de legumes. Fica muito bom e todo mundo vai querer provar! Só se você tiver amigos e familiares realmente babacas para que eles não entendam a sua escolha. A única parte chata é que comecei a pegar nojo até de olhar para carnes, embora o cheirinho ainda seja muito apetitoso.

Resumindo

Minha escolha de parar de comer carne foi muito natural. Não é nenhum big deal ser vegetariano e sinceramente, não tenho nenhuma ambição de fazer com que todo mundo siga o mesmo caminho. Acredito que educar as pessoas é muito mais efetivo do que pressionar. Por enquanto, não sei se quero retirar ovos e leite ou até mesmo o sushi, mas até sobre isso tá tudo bem. Se acontecer será no meu próprio tempo.

Para saber mais

Livro: Alimentação sem carne – Dr. Eric Slywitch da Editora Alaúde, que traz dicas básicas de nutrição, dados sobre a dieta vegetariana e algumas receitinhas.

  • Filme Okja da Netflix, que mostra como a indústria alimentícia pode ser bastante maluca.
  • O filme francês Raw, sobre uma vegetariana que vira canibal. Disponível na Netflix e uma experiência narrativa bem diferente.
  • Cowspiracy, documentário da Netflix sobre a indústria agropecuária e os impactos ambientais que comentei no post.
  • Este artigo do Papo de HomemPor que se tornar vegetariano salva a sua vida e milhares de outras?
  • Este artigo em inglês sobre os reflexos da agropecuária no aquecimento global.

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