The Mask You Live In: Um documentário sobre a autopunição masculina

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Amiga, você já sentiu raiva por ser menina? Durante a minha infância, entre os 5 e 8 anos, lembro que passei um bom tempo sentindo raiva por ter nascido mulher.

Diferente do que acontece com muitas crianças, esse sentimento não surgiu por uma questão de identidade de gênero, mas porque desde muito cedo comecei a perceber que meninos sempre tinham privilégios em certas brincadeiras ou situações.

Privilégios que não apenas me excluíam, mas me puniam pelo simples fato de ser menina e vir automaticamente com o “Kit Menina” criado pela sociedade.

Lembro de ter chorado no colo de minha mãe e gritado furiosa algo como “Droga! Por que eu não nasci menino?”. A memória que desencadeou isso não é clara, pois tenho a impressão que foi resultado do acumulo de uma violência silenciosa e recorrente. O que ficou dessa história foi o sentimento de ódio pela minha existência.

Não era porque eu era baixinha, gorda ou outro aspecto estético fora do padrão. Era porque meu gênero – ou melhor, o outro – me excluía e limitava. Isso não é extremamente cruel?

A reviravolta nessa história

Embora minha mãe tenha me orientado ao longo dos anos, sei que em parte também foi o diálogo com amigas e a troca de experiência com elas, que ajudou a reconhecer minha força.

Meninas e mulheres têm essa naturalidade incrível para falar sobre os próprios sentimentos e problemas, trocar experiências e de certa forma dar apoio quando uma mana precisa – basicamente é sobre isso que conversamos no banheiro. Queria que todas fossem assim, mas infelizmente sabemos que para muitas é difícil praticar a sororidade – união entre as mulheres – porque fomos ensinadas a fazer o contrário.

Com o passar do tempo comecei a perceber alguns padrões nos meninos, que simplesmente não invejava. Entre esses padrões estavam a fobia de cores e brinquedos de meninas; engolir o choro quando sentiam dor; tudo se resumir a violência e raramente terem uma conversa mais profunda sobre a vida e o universo. Os poucos meninos que eram nossos amigos e eram “diferentes” sempre foram tachados de veadinhos, mas eram esses que ainda me davam esperança na vida – e viravam crush.

A gente vai crescendo e percebe que essas relações são mais complicadas. As brincadeiras injustas e os choros engolidos acabam formando meninas e meninos com assuntos mal resolvidos, emocionalmente instáveis e com muitas dúvidas existenciais, que acabam invadindo carreiras, vida profissional, relacionamentos, etc.

Com o tempo deixei de odiar o fato de ser mulher e comecei a tentar entender porque as coisas são como elas são.

Um documentário para todos

Amigo, você já sentiu raiva por ser menino? O que muitas vezes assimilamos por métodos empíricos, foi belamente ilustrado e debatido no documentário “The Mask You Live In” (A Máscara que Você Vive), que aborda o conceito de masculinidade criado pela nossa sociedade e que pode estar destruindo nossos garotos – segundo a sinopse da Netflix.

O machismo – calma, não foge do blog – faz suas próprias vítimas entre os meninos. Segundo o dialogo promovido no documentário, um dos principais sintomas é a falta de conhecimento sobre os próprios sentimentos e a necessidade de mascará-los – escondendo ou devolvendo em violência – para serem respeitados.

Isso tudo com depoimentos de jovens e adultos, que por meio de experiência em diferentes idades mostram os efeitos do machismo na capacidade de expressão e desenvolvimento. Foi muito revelador entender esses detalhes, que para nós mulheres – e mesmo vocês homens – passam perigosamente despercebidos.

Foi só então que entendi porque ao invés de chorar emocionado em minha formatura, meu pai segurou as lágrimas e precisou fumar um cigarro atrás do outro, perdendo alguns momentos especiais; ou quando meu namorado acumula silenciosamente os próprios problemas e só percebe o que está sentindo quando conversamos; ou quando meus amigos terminam um namoro e vão para a balada pegar geral só para não admitirem que estão sofrendo.

Esses casos me deixaram apavorada e ao mesmo tempo promoveram um enorme sentimento de empatia e amor pelos homens da minha vida.

Assim como fui atrás de respostas para a pergunta “Por que as coisas são como são para nós meninas?”, saí perguntando para os homens mais próximos coisas como “Vocês têm essa rede de ajuda entre os amigos para conversarem sobre os problemas?” (não vale ser só a mesa de bar), “O que vocês fazem quando estão destruídos emocionalmente?”, “Existe apoio entre os homens para falar sobre tal assunto?”.

Confesso que a amostra não foi tão grande, mas as respostas foram ficando muito parecidas entre si e também com a abordagem do documentário.

Acredito profundamente no poder da conversa para a resolução de conflitos. Embora o estigma de “falar muito” recaia sobre a mulher, essa é a principal forma encontrada para entender o mundo e nosso papel. Uma forma que nos liberta, esclarece e cria uma rede de empatia.

The Mask You Live in é essencial para que homens e mulheres iniciem um debate sobre o assunto, que pode ajudar crianças, jovens e adultos na libertação de angústias. Só assim poderemos caminhar juntos em direção a uma sociedade, que não puna meninos e meninas pelo que são ou por aquilo que desejam ser.

Assista “The Mask You Live In” na Netflix e me comente: você já sentiu raiva por ser quem você é? Compartilha algum ponto da minha história? Conte sua experiência sobre o assunto!

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