A Chegada: O sci-fi que você respeita

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Senta aqui comigo e vem tentar entender melhor esse filme, que mexeu com a cabeça de muita gente, mas deixou uma galera bem confusa.

A Chegada (Arrival) estreou aqui no Brasil dia 24 de novembro. Por algum motivo, mesmo sendo uma grande promessa do cinema para 2016, a divulgação foi bem tímida e curiosamente só alcançou dois nichos bem específicos: os cinéfilos e os fãs de ficção científica ou sci-fi. O público casual parece ter ficado bem confuso e não é por menos.

Mas se você ainda não viu, por favor, vá agora mesmo comprar seu ingresso (se ainda estiver em cartaz).

É interessante perceber como pessoas fora dos dois perfis parecem ter tido dificuldade em entender a história e, até mesmo, de reconhecer a qualidade narrativa. Desde que saiu o primeiro trailer fiquei curiosa e meus instintos alertaram para assistir no cinema. E fui toda feliz e faceira. Ainda bem.

Antes de continuar a ler, saiba que esse é um post direcionado para quem já assistiu ao filme. Pare imediatamente se você ainda não sabe nada, pois qualquer informação pode estragar sua experiência.

Por que você precisa respeitar A Chegada

A primeira coisa que precisamos deixar claro sobre A Chegada é sua qualidade como ficção científica. É um filme que deve ser respeitado, como há muito tempo não víamos no cinema. Esqueça Gravidade (2013) e Interestelar (2014). São ótimos em suas propostas, mas passam longe da verdadeira ficção científica, que projeta angústias humanas em cenários extraordinários, como uma espécie de representação do mito moderno.

É um gênero cerebral, que utiliza elementos próprios para construir uma narrativa repleta de subtextos. Por isso, não faz muito sentido filmes com milhares de explosões e aliens babões. A boa ficção científica é sutil e precisa de tempo para ser contada, sem entregar tudo muito mastigadinho.

Esse é o motivo que faz A Chegada tão especial. Talvez o breu, presente na divulgação, faça parte da experiência proposta pelo diretor Denis Villeneuve .

Você entra na sala achando que será mais um filme de extraterrestres, com explosões e falas tacanhas, mas acaba saindo em catarse.

Realmente, a primeira parte do filme parece totalmente previsível, com ações clichês dos militares, mas que muito provavelmente foram inseridas propositalmente para surpreender durante o plot twist ou ponto de virada. Previsível não é uma boa definição para o longa.

O filme faz pensar, não na possibilidade da existência de seres de outro planeta – isso seria uma interpretação bastante rasa –  mas no poder de nossas escolhas e nas suas consequências, que acabam configurando nossa história de vida.

Por isso, os extraterrestres não são importantes. Eles são o meio pelo qual a narrativa acontece para conversar com sentimentos essencialmente humanos, uma característica da boa ficção.

Pergunto: Você teria sua filha mesmo sabendo que ela partiria tão cedo e em tanto sofrimento? Ou preferiria apagar sua existência? Assim como essas perguntas, outros tantos questionamentos baseados na moral humana devem ter invadido sua mente, não é?

Tempo cíclico x tempo linear

Um dos conceitos chave é o tempo cíclico, muito presente em outras obras que abordam o tempo como 4ª dimensão. Sendo não linear, tudo que acontece agora vai acontecer ou já aconteceu. Presente, passado e futuro são líquidos. Noção talvez difícil para quem não experimentou o conceito anteriormente.

O fato é que isso não apenas permeia a vida dos personagens, mas influencia diretamente na estrutura do filme. As primeiras cenas de Louise, são na verdade um futuro que surge em visões, mas até metade da história não temos certeza, afinal ainda estamos na zona de conforto da linearidade temporal.

Apenas conseguimos formar alguma conclusão quando a frase “Quem é esse menina?” é mencionada pela linguista.

O título “A Chegada” também é sobre a aceitação da partida e a finitude da vida, no caso um paralelo entre as naves e a relação entre Louise e sua filha. Portanto, chegadas e partidas dependem do ponto de vista, que é influenciado pela forma como o tempo é interpretado.

Assim, a construção de cenas torna-se uma verdadeira experiência e a plateia tem a oportunidade de reconstruir na própria mente a linearidade para encontrar algum sentido.

O filme entrega aos poucos esses mistérios para que o público tenha um delicioso momento “Eureka!”. Você também sentiu isso?

As referências a 2001 – Uma Odisseia no Espaço

Uma das coisas que mais me surpreendeu foi o respeito às referências de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Só percebe quem realmente é intimo da história de Arthur C. Clarke. Estou escrevendo esse texto, sem antes ler qualquer crítica a respeito do filme, portanto, esse paralelo com 2001 pode ser coisa da minha própria cabeça, ok?

Mas tem alguma coisa lá, eu sei. A história de A Chegada faz parte de um livro chamado História de sua Vida e Outros Contos (1999), de autoria do escritor e cientista da computação, Ted Chiang. É muito fácil que ele, os roteirista e o próprios diretor tenham bebido da fonte que é 2001, uma vez que este marcou a história do cinema e da literatura.

Além do ritmo, A Chegada compartilha outro conceito de 2001: os Monolitos. No livro, os Monolitos são entidades que entram em contato com as civilizações para promover uma aceleração na evolução. É o que acontece com os macacos, que ganham inteligência, e depois com Hal 9000 e Dave.

Da mesma forma a raça alienígena de A Chegada entra em contato para prover a humanidade de conhecimento. Assim, no momento certo, teríamos as ferramentas e sabedoria necessária para ajudar os extraterrestres quando estes precisassem. Uma troca justa.

Outra menção aos Monolitos fica por conta das naves. Não em seu formato, mas o jeito como se comportam em cena. Elas apenas estão lá, sem aparentemente nenhuma ação. Em certas tomadas, essa semelhança parece tomar conta da tela.

Quanto aos extraterrestres vale a interpretação do formato de seus corpos. Será que aquelas mãos representariam o toque do conhecimento divino? Fica o questionamento, pois sempre viajo muito nessas coisas. #camillices

A trilha sonora, feita mais por “barulhos” do que realmente melodias, também lembra um pouco 2001, que da mesma forma parece transmitir sensações específicas ao público, principalmente de sufocamento e opressão. Clique aqui e escute novamente o soundtrack do filme.

Uma protagonista que faz sentido

O fato do personagem principal ser mulher traz mais veracidade ao filme. Nenhum homem poderia transmitir tamanha emoção e intimidade na relação filial proposta, ou representar a escolha da mulher em dar à luz ou não ao filho.

Seria essa uma forma da ficção mencionar a tão polêmica discussão sobre aborto? Pare um pouquinho e pense.

Outro ponto importante da protagonista, foi a superação da descrença em seu trabalho, para provavelmente se tornar o ser humano mais especial da história.

Todo o tempo Dr. Louise precisa provar seu valor, não muito diferente do que acontece diariamente com as mulheres no mercado de trabalho, principalmente no campo cientifico e acadêmico.

Além disso, Amy Adams está excepcional em sua atuação tão vulnerável e ao mesmo tempo tão decidida em superar barreias para fazer o que é certo. Aliás, a vulnerabilidade é o que a torna tão humana, promovendo uma conexão entre a personagem e o público.

Como foram feitos os símbolos

O filme foi feito com muito cuidado. Os símbolos que representam o dialeto da raça extraterrestre foram feitos por designers, que buscaram uma lógica por trás da formação das imagens. Confira este artigo que explica direitinho o processo de criação.

Conclusão

O post ficou maior do que o esperado, mas essa é totalmente uma #Camillice de quem é fã de ficção científica. O filme A Chegada, mesmo tendo passado despercebido pelas terras brasileiras, tem um grande potencial de se transformar em um clássico e faturar alguns Oscars em fevereiro. Essa é a ficção cientifica que você precisa respeitar, mesmo porque não sabemos quando vai aparecer outra do mesmo nível, não é mesmo?

O que você achou do filme? Viajou tanto quanto eu nessa história toda ou ficou perdido? Conte aí nos comentários e vamos discutir mais um pouco, pois tenho certeza que muita coisa ficou de fora do texto.

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